Buscar
  • Renata Neves

Você conhece a Metodologia DeafSpace?

Acessilidade também para surdos

#inclusão #acessibilidade #designuniversal #deafspace #surdosqueouvem #surdez #comunidadesurda


Provavelmente você esteja ouvindo falar deste conceito pela primeira vez, e não é de se estranhar. Aqui no Brasil, temos praticamente nenhum estudo ou referências mínimas sobre o assunto.


Nos deparamos muitas vezes com o espanto de quando se fala em acessibilidade para surdos. Normalmente, se associa acessibilidade ao uso de um intérprete de Libras e só. Mas não foi o que Hansel Bauman, arquiteto americano observou quando foi contratado para fazer o projeto de reforma da Gallaudet University, universidade americana para Surdos e deficientes auditivos. Em seu processo de briefing, através do levantamento das necessidades dos alunos, o arquiteto desenvolveu a metodologia DeafSpace, que norteou todo o processo projetual posterior.


Deafspace é uma abordagem arquitetônica que nasceu da maneira única que os Surdos tem de perceber e habitar o espaço. As pessoas surdas sempre adaptaram o espaço para atender às suas necessidades de acordo como interagem com o outro, como o uso de espelhos, o tipo de iluminação, contrastes, disposição das cadeiras etc. E a metodologia surgiu disto, de oficinas em que os usuários puderam expressar de forma clara, pontos importantes no espaço que já eram conhecidos por eles, mas que nunca haviam sidos descritos. Mais do que ser uma metodologia centrada na percepção visual, ela cria ambientes multissensoriais que facilita a mobilidade, expressa a identidade e aumenta o bem-estar.


Através disto, Bauman criou cinco diretrizes que contribuem para facilitar tanto o aprendizado, quanto a interação, comunicação e socialização dos alunos, e assim aumentar o sentimento de pertencimento pelo lugar e a motivação em aprender. São elas:


O espaço e a proximidade


Os Surdos geralmente iniciam a comunicação com o contato visual e precisam mantê-lo ao longo de uma conversa. Expressões faciais são importantes para eles. O mesmo acontece com os movimentos do corpo; para sinalizar confortavelmente, uma pessoa precisa de espaço adequado - mais do que normalmente é necessário para alguém envolvido em uma conversa falada. Muitas salas de aula da Gallaudet têm sofás redondos. As salas de reunião podem ter mesa oval; as salas de aula são reunidas e, idealmente, têm vários corredores para que um membro da platéia possa subir ao palco facilmente quando ele ou ela quiser fazer uma pergunta. Enquanto um equilíbrio confortável varia consideravelmente de pessoa para pessoa, em geral, os surdos preferem ter alguma medida de controle visual sobre a área circundante. Um espaço para surdos deve ter áreas semi-públicas fora dos locais e caminhos centrais de passagem, onde duas pessoas podem alcançá-las ou uma pessoa pode desfrutar de um pouco de solidão.


O alcance sensorial


Os Surdos têm uma percepção visual que lhes conferem uma capacidade de leitura do ambiente através de características que por vezes não são percebidas pelos ouvintes, como movimento de sombras, vibrações e leitura de expressões faciais do outro. O espaço em “360 graus” facilita essa orientação e a mobilidade do usuário. As Diretrizes do DeafSpace recomendam várias táticas para estender o alcance sensorial, como projetar corredores de visão através e entre edifícios, e fornecer amplos vidros por dentro e por fora, para que entradas e funções sejam legíveis. As superfícies reflexivas de baixo brilho podem oferecer pistas para atividades próximas (por exemplo, a sombra de uma pessoa fora do campo de visão), assim como as vibrações controladas (as pegadas de alguém que vem pela esquina)


A mobilidade e a proximidade


Assim como aqueles que distraidamente na conversa falada podem tropeçar ou esbarrar em alguém, o mesmo acontece com os surdos - com a grande diferença de que estão negociando um ambiente construído no qual a audição não existe ou é secundária. A maioria das escadas e calçadas também não permite observar o rosto de um companheiro ou usar uma ampla gama de movimentos, elementos-chave das conversas com leitura labial ou Libras. Pois existe a necessidade de uma distância do observador e capacidade de percepção do entorno, além da capacidade de percepção do perigo e da direção correta. O design do DeafSpace exige rampas e escadas largas e levemente inclinadas; cruzamentos "suaves" para evitar colisões de pedestres; e elementos arquitetônicos e paisagísticos contínuos ou repetitivos, como linhas de referência em paredes, para reforçar o caminhar e auxiliar a navegação instintiva.


A luz e a cor


Alguns aspectos de uma má iluminação interferem diretamente sobre a comunicação visual, como por exemplo brilho, padrões de sombra e luz de fundo que dificultam a interação e causa fadiga ocular. É imprescindível uma iluminação artificial adequada além de elementos arquitetônicos que controlem a luminosidade diurna para que haja sempre uma luz suave e difusa. As cores funcionam como elementos de contraste, além de ferramenta de estímulo ao conforto psicológico do local. Certas cores, especialmente azuis e verdes suaves, contrastam bem com uma variedade de tons de pele, facilitando a leitura labial e de sinais. A Gallaudet faz testes de cores rigorosos em interiores novos e reformados.


A acústica


Os ruídos e as interferências eletromagnéticas têm uma influência direta sobre surdos usuários de prótese auditiva e de implante coclear, visto que o som pode ser um elemento de distração e de incômodo. Alguns elementos arquitetônicos e mobiliários rígidos aumentam a reverberação sonora e trazem desconforto. Todo o ambiente deve ser pensado levando em consideração a redução dos ruídos de fundo. Além disso, elementos de revestimentos que possam trazem isolamento acústico possibilitam aos surdos que estão em processo de reabilitação auditiva possam fazer uso de meios tecnológicos com mais conforto e compreensão, como por exemplo assistir televisão ou ouvir música. Em geral, espaços acusticamente silenciosos são o objetivo. Aparelhos auditivos e implantes cocleares amplificam sons e, para seus usuários, o zumbido do ar condicionado ou ecos altos pode ser extremamente perturbador.


Essas diretrizes são essenciais para o desenvolvimento de um ambiente que seja funcional e confortável a uma pessoa surda e traz assim, através de elementos simples a inclusão desse perfil no ambiente de forma positiva e acessível.


Fonte:

https://www.curbed.com/2016/3/2/11140210/gallaudet-deafspace-washington-dc


Para saber mais: https://www.researchgate.net/publication/325134004_A_IMPORTANCIA_DA_ERGONOMIA_DO_AMBIENTE_CONSTRUIDO_NOS_PROJETOS_ARQUITETONICOS_-_O_CASO_DOS_DEFICIENTES_AUDITIVOS

337 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo