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  • Renata Neves

Salas de aula de música escolar: parâmetros acústicos

Diretrizes de acústica para espaços de ensino musical da Educação Básica.

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Você sabe o que é uma sala surda ou uma sala viva? Conhece as diferenças entre um projeto de sala de aula de exposição oral e uma sala de aula de música? Sabe a importância do isolamento e a escolha correta dos revestimentos, esquadrias e mobiliário para uma aula produtiva? Hoje vamos conversar um pouco sobre esses pontos, levando em consideração os aspectos acústicos importantes para o ambiente escolar de ensino da música.


Um projeto de sala de aula para musicalização deve levar em consideração características diversas. Dentre elas, a principal é o tratamento acústico do ambiente. Como expomos anteriormente, a música é a arte do som e do silêncio, e para que possamos trabalhar de forma eficiente e agradável esses pontos, precisamos seguir determinadas diretrizes que vão contribuir para que o ambiente se torne o "terceiro instrumento" em cena. Terceiro porque o primeiro é o próprio corpo humano, o segundo o objeto musical e o terceiro o instrumento. Juntos, eles criam condições para trabalhar os quatro aspectos fundamentais da música: tempo, ritmo, volume, timbre e altura. A percepção musical está diretamente ligada ao ambiente, visto que um local com uma acústica inapropriada pode distorcer o som a ponto de deixar de ser prazeroso e se tornar um incômodo ou ser incompreensível.


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DIFERENÇAS ENTRE SALA SURDA E SALA VIVA


Para compreender a diferença entra ambas, é necessário primeiro entender alguns aspectos de avaliação de acústica objetiva. Nessa avaliação, são levados em consideração indicadores fisicamente mensuráveis e precisos, como por exemplo:

  • Tempo de Reverberação do Som (TR): se refere ao tempo de permanência do som em uma sala após a fonte sonora ter sido extinta. Para pequenas salas, essa extinção precisa ser abrupta e não suave e progressiva. Ele varia de acordo com o volume do lugar, sendo por isso que alguns lugares são ótimos para a fala mas péssimo para música e vice versa. Geralmente uma sala de música deve ser mais reverberante que uma sala de aula e a escolha do tempo ótimo de reverberação está associado ao uso do espaço. Os fatores determinantes para o TR são: volume, área, forma da sala e distribuição dos materiais de absorção.

  • Tempo de Decaimento Inicial (EDT): assim como o TR, também se refere ao temo de decaimento do som, porém apenas aos primeiros 10dB, sendo assim o tempo para que a energia sonora decaia 10dB a partir da extinção da fonte sonora. É expresso em milissegundos (ms) e está ligado diretamente à inteligibilidade da fala e descreve a reverberação percebida pelo ouvinte.

  • Clareza (C): Está ligada à definição da clareza musical de salas dedicadas à música. Ela considera "reflexões úteis" aquelas que atingem o ouvinte até 80ms após após o som direto. Quanto maior a reverberação, menor a clareza, principalmente em relação à inteligibilidade da fala. Podemos aumentar a clareza através de um som suficientemente intenso, com a redução do som reverberante, para que ele não mascare o som direto e com a retirada dos ecos do espaço. Ela também depende do padrão de reflexão das superfícies, da distância entre os ouvintes e o músico ou orador e da dimensão da sala.

  • Definição (D): Está diretamente ligada à clareza, sendo a razão entre a energia total e a energia inicial que chega em um ponto da sala durante os primeiros 50ms após o som direto e está escalado entre 0 e 1, sendo que quanto mais próximo de 1, melhor a definição e maior a inteligibilidade. São consideradas reflexões úteis, pois dão suporte ao som direto e contribuem com a audibilidade do som sem efeitos negativos. A definição está relacionada à Inteligibilidade da Fala que representa a relação entre o número de palavras ou sílabas entendidas e o número de palavras, sentenças ou sílabas faladas.

  • Índice de Transmissão da Fala (STI): se refere ao grau de inteligibilidade numa escala de 0 a 1, sendo 0 para ininteligível e 1 para perfeitamente inteligível. Quando um som é inteligível se compreende seu significado na comunicação. Ela pode ser comprometida tanto pela distância quanto pelo ruído de fundo. A inteligibilidade vai depender de fatores acústicos como a absorção, a reflexão, a isolação e o ruído de fundo.

  • Ruído de Fundo: é o ruído percebido sem a presença das fontes sonoras. Por exemplo, numa sala de aula em que os alunos e professor se encontrem em silêncio, o ruído que permanece é o ruído de fundo.

  • Mascaramento: é o efeito em que os sons agudos se fazem ouvir melhor que os graves.

  • Isolamento Sonoro ou acústico: se refere a medidas tomadas nos limites do ambiente para impedir que um som entre ou saia dele.

  • Absorção Sonora ou acústica: são medidas tomadas no ambiente para que ele absorva o som que é produzido dentro do seu limite

Além desses parâmetros de avaliação objetiva do espaço, existem parâmetros subjetivos que também são avaliados e que estão diretamente ligados com a sensibilidade e a percepção dos indivíduos daquele ambiente. Diante disso, avaliamos, por exemplo:

  • A audibilidade: é o "volume sonoro"que a sala proporciona e que aumenta com a reverberação.

  • A vivacidade: é a reverberação da sala em médias e altas frequências, sendo uma sala reverberante, viva e uma pouco reverberante, morta, ou seca. Para inteligibilidade da fala, a sala seca é a mais indicada, porém geralmente ela tem resultados menores de audibilidade. É preciso que nesses casos haja um compromisso entre a audibilidade e a vivacidade. Tem relação com o Tempo de Decaimento Inicial (EDT).

  • O calor: se refere à presença dos tons graves, ou seja, o nível de audibilidade em baixa frequência em relação à média frequência e alta frequência. Quando o tempo de reverberação para essa frequência é mais alto, dizemos que a sala é quente ou escura. Isso acontece quando as altas frequencias são atenuadas por cortinas, carpetes ou outros materiais absorvedores. Tem relação com o Tempo de Decaimento Inicial (EDT) nessas frequências.

  • O brilho: ocorre seu aumento quando o calor e a vivacidade estão presentes em alta frequências, ou seja, essas frequências se faz ouvir de forma mais proeminente e tende a diminuir de forma mais lenta. Se as paredes laterais da sala são planas e lisas e estão posicionadas de uma forma que produzem reflexões precoces do som, este pode assumir qualidade frágil, dura ou áspera. Sendo assim, o brilho pode ser evitado incluindo pequenas irregularidades nas paredes ou curvando-as

  • A intimidade: se refere a impressão de que a música está tocando em um lugar menor, e próximo de quem ouve. A primeira reflexão chega das paredes laterais ou de um balcão frontal, então para um alto grau de intimidade, a sala precisa ser estreita e possuir paredes laterais próximas e paralelas.

  • O envolvimento: se refere a intensidade com que o som reverberante causa a impressão de cercar o ouvinte e está relacionado à difusão do som. Ele é aumentado através de irregularidades significativas e de ornamentação nas paredes laterais, teto e balcões, que ajudam a espalhar as reflexões do som em todas as direções.

  • A intensidade: se refere a percepção de força do som que chega aos ouvidos e é medida em decibéis. Os níveis de intensidade sonora variam de sala a sala dependendo da forma de cada uma. A música também soa mais intensa em uma sala reverberante do que em uma sala seca.


Sala viva do Theatro São Pedro

Percebemos então, que para a avaliação acústica de uma sala, são levadas em consideração diversas diretrizes, que em conjunto trazem a harmonia necessária para a percepção auditiva. Faz necessário esclarecer que diante desses parâmetros, o espaço de sala de aula deve ser projetado de acordo com a atividade que vai ser exercida lá. Em salas de aula, de exposição de conteúdo, ambientes com menor vivacidade, ou secos, com pouco tempo de reverberação e com pouco volume, são melhor aproveitados Já em salas de concerto, quanto mais vivo for o espaço, melhor o desempenho da música, sendo assim preza-se pela reverberação. Quanto maior o espaço ou menor a área efetiva de absorção sonora pelos materiais existentes nele, mais reverberante ela se torna. Espaços grandes são recomendados para corais e orgãos. Espaços menores são indicados para a fala.


Sala seca. Fonte: Trisoft

Em salas muito secas, a prática do instrumento pode se tornar cansativa, demandando um esforço maior do músico para que o som seja perceptível, visto que os materiais absorventes não permitem uma boa difusão do som. Porém em salas de aula, a reverberação alta de uma sala viva propaga a voz do professor e outros ruídos presentes no ambiente e pode causar danos e stress nele e nos alunos, além de causar problemas de desmotivação e aprendizado. Alguns tipos de instrumentos também necessitam de salas secas, como o piano, por exemplo, por conta da mecânica envolvida na execução musical dele. Uma sala que irá ter mais de uma atividade precisa possuir flexibilidade acústica, podendo ser ajustável para cada tipo de uso.


Sendo assim, ao se pensar em salas de ensino musical para a Educação Básica, devemos considerar que temos que trabalhar com salas mais secas, mas trazendo estratégias para aumentar a difusão do som. Essas estratégias são importantes para que possamos permitir um alto índice de transmissão da fala, porém controlando o ruído de fundo e permitindo que a clareza e a definição estejam presentes. Esses locais precisam manter a qualidade da fala e também buscar as melhores condições para as práticas da música, que possui uma variedade de instrumentos musicais e métodos de ensino, e a sala precisa estar adaptada para atender a essas demandas. Para isso é necessário se pensar na promoção do nível de altura do discurso, no controle do ruído de fundo e na otimização da reverberação. Podemos conseguir isso através da alteração do volume da sala, com paredes e tetos móveis, ou através da alteração das superfícies, com estratégias de acionamento de cortinas e painéis pivotantes, por exemplo.





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