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  • Renata Neves

Onde as crianças aprendem música?

Espaços para o ensino de música precisam de projetos específicos para facilitar o aprendizado nas escolas.

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Semana passada conversamos sobre a importância da música tanto para o aprendizado, quanto no processo de reabilitação auditiva. Conversamos também sobre a obrigatoriedade da disciplina, que foi incluída na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde 2008. Também conversamos com uma professora de música sobre a sua vivência em sala de aula e suas dificuldades para o ensino da música, além de dicas para trabalhar a musicalização nas escolas. Hoje vamos falar um pouco sobre a realidade da educação musical nas escolas brasileiras.


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O ENSINO DA MÚSICA NAS ESCOLAS


Fazendo uma retrospectiva histórica, percebemos que já na Era Vargas a acústica das salas de música das escolas começou a ser pensada. Na época, se tornou obrigatório o ensino do canto orfônico nas escolas, e observamos que escolas construídas na época tinham um salão nobre próprio para essa atividade, que tinha palco, cortina e piano, com materiais de revestimento que facilitavam a prática do canto coral, contribuindo para a propagação das vozes, porém com clareza e com uma reverberação eficiente.


Porém, a partir de 1971 a música passou a fazer parte da educação artística, apenas como atividade complementar, e não mais disciplina, tendo se tornado instrumento para o desenvolvimento criativo pela livre expressão, com sua carga horária dividida com as artes plásticas e o teatro. Entre 1991 e 2000, a música se tornou parte do ensino da arte, dividindo espaço com as artes visuais, o teatro e a dança.


Somente a partir de 2008, com a Lei 11769, a música se tornou conteúdo obrigatório nos currículos escolares. Apesar da obrigatoriedade, ela não possui exclusividade de ensino, dividindo espaço com outras disciplinas, dentro do contexto do ensino de artes. Sendo assim, algumas preocupações se tornaram muito relevantes, como a formação do professor de música das escolas, quais estratégias e conteúdos serão abordados e como são feitas as seleções, visto que possuímos uma grande diversidade cultural e praticas plurais na música.


E além de tudo isso, ainda existe a preocupação em relação aos espaços em que a música será ensinada. Sabemos que os espaços destinados às artes em geral, e mais especificamente à musica são ambientes inadequados, que por vezes foram projetados para outra finalidade, sendo adaptados de forma improvisada para as aulas musicais. Essas podem ser dadas tanto em ambientes externos, como pátio, quadra, como em ambientes internos, em que são feitos em sua maioria, nas salas de aula comuns.


O ensino da música segue duas vertentes: a audição e a prática musical. Na audição musical, se estimula o contato do aluno com um repertório vasto, onde ele possa entrar em contato e absorver tanto a diversidade quanto a escuta ativa. Na prática, se desenvolve habilidades ligadas à interpretação, composição e improvisação musical. Nos dois casos, o espaço onde são executadas essas vertentes é de extrema importância, visto que a música é uma arte de som e silêncio, e a manifestação efetiva e eficaz desses dois aspectos só se realiza com uma boa acústica.


ISOLAMENTO E QUALIDADE ACÚSTICA DAS SALAS


Um som para ser bem ouvido precisa ser emitido em um ambiente em que não existam mascaramentos, ou seja, sons concorrentes que abafem a sua escuta, porque o silêncio relativo é fundamental para ouvir e fazer música.


Em salas de aula comuns, praticamente não existe isolamento acústico, porque a distribuição das janelas geralmente é feita voltada para ambientes barulhentos, como pátios e quadras, além do ruído externo da própria cidade. Também, quando existem janelas altas voltadas para corredores, é comum que o barulho das pessoas circulando penetre na sala de aula. Em ambientes assim, é gerada uma cacofonia, sobreposição de sonos que impossibilita o real aprendizado da música.


Além disso, um dos pontos mais rico no aprendizado musical é o contato com a dinâmica. Ela se refere a variação de contrastes de trechos musicais com graduações diferentes. Em locais com um mau isolamento acústico, prevalece o som mais forte, comprometendo a vivência da dinâmica. Isso se torna um problema porque é ela que traz os contrastes que prendem, emocionam e envolvem o ouvinte e em ambientes fora da escola o contato com ela é muito difícil, deixando assim o aluno de experienciá-la na aprendizagem musical.


Também, além do ambiente se tornar uma vítima do ruído externo, ele pode ser o causador ou ambos, pois a música produzida nas aulas pode se propagar para ambientes adjacentes à sala de música através do piso, paredes, teto, estrutura do edifício, janelas, portas e até mesmo através de sistemas de ventilação e refrigeração, atrapalhando outras atividades em espaços próximos.

"73% dos professores se sentem incomodados, por exemplo, ou com ruídos externos vindos da rua ou de outros cômodos da edificação. Uma resposta que evidencia isso é: do ponto de vista das condições da sala, o maior problema é a falta de isolamento em relação às salas vizinhas. O som dos outros instrumentos vaza para dentro da sala e impede a percepção de sons formadores, harmônicos, diferenças sutis de afinação e batimentos. Às vezes impede inclusive que eu escute meus alunos." (ROCHA)

Além do isolamento, as qualidades acústicas do próprio ambiente devem ser trabalhadas. Existem estudos que tratam do tipo ideal de espaço para ensino de música, alguns defendendo um ambiente seco (com menos reverberação e mais inteligibilidade da fala) e outros um ambiente mais reverberante (como em ambientes de conservatório). No caso de salas de ensino de música da educação básica, o ideal são espaços mais secos, visto que normalmente existe um volume alto de alunos inseridos em um ambiente pequeno ou médio, o que produz um alto grau de reverberação. Além disso, a reverberação excessiva se mistura com os sons da audição musical, criando confusão, percepção negativa da música e irritabilidade dos alunos. Fora isso, em atividades em grupo, os integrantes não conseguem ouvir um ao outro, prejudicando o alcance de bons resultados musicais coletivos.

"Não é exagero afirmar que, diante de novos desafios decorrentes da Lei n. 11769/08 as condições acústicas das salas onde a música é ensinada estão entre os fatores mais importantes, pois é por meio da audição que o encantamento para a música poderá produzir bons frutos" (Romanelli)

Sendo assim, é importante que ao pensar na proposta educacional de ensino da música, se pense também nos espaços de aprendizagem e acolhimento dos alunos para a prática, pois são eles que produzirão uma experiência positiva com a música, o que contribuirá para perpetuar a prática e auxiliar no aprendizado escolar como um todo. Profissionais capacitados para projetos de ambientes escolares podem contribuir no desenvolvimento desses ambientes, e somar à escola do desenvolvimento de boas práticas educativas.

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