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  • Renata Neves

Música e surdez: uma relação que dá certo

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Você sabia que a música pode contribuir para elevar a auto-estima da pessoa com deficiência auditiva? Além disso, ela contribui para que o surdo perca o medo de se expressar, é um excelente aliado à reabilitação auditiva e contribui de forma lúdica, eficiente e prazerosa com a melhora da fala e da leitura e escrita.


Hoje vamos conversar um pouco sobre os benefícios da música para a pessoa surda e como podemos contribuir para inseri-la no seu universo.


Musicoterapia e (re)habilitação auditiva


A musicoterapia é uma linha terapêutica que através dos componentes da música - ritmo, melodia e harmonia - contribui para o tratamento de diversos tipos de disturbios e doenças ou para o processo de reabilitação e habilitação auditiva. A reabilitação auditiva se dá quando a pessoa ouvia e por causas diversas, perdeu o resíduo auditivo e passou a utilizar próteses auditivas para restabelecer a capacidade de ouvir, como implantes cocleares, AASI, dentre outros. A habilitação auditiva se dá quando a pessoa nasce com perda auditiva severa a profunda, ou perde a audição antes do processo de fala, e utilizando prótese como o implante coclear, passa a ouvir pela primeira vez.


Existe um certo receio em se trabalhar música com surdos por parte da sociedade, porém a musicalidade é algo inerente ao ser humano, e trabalhar a música com eles contribui para aumentar sua auto-estima, e colabora para perderem o medo de se expressar. Quando o surdo por conta do implante coclear ou de prótese auditiva começa a ouvir, ainda não tem parâmetro de som, ou perdeu o parâmetro que possuía por conta do tempo em que ficou sem a percepção sonora. A musicoterapia contribui para treinar esse novo processo de escuta.


A música pode fornecer meios de comunicação não-verbais ou pode servir de ponte para conectar canais de comunicação verbais e não-verbais" (BRUSCIA, 2000)

Estudos recentes apontam áreas diferentes no cérebro para a melodia, a harmonia, o timbre, a emoção e o ritmo. Sendo assim, ele interpreta a música de forma complexa, possuindo uma área musical primária, onde são percebidos elementos como frequência, vibração, etc., e e uma área musical secundária, próxima da área da linguagem e que contribui para o processo de fala, interpretação e escuta. Além disso, a música também ativa o sistema límbico, através das emoções que são transmitidas por ela.


Usuários de implante coclear possuem capacidade limitada em algumas áreas de percepção musical por conta da estrutura tecnológica da prótese. Ela foi produzida para uma boa capacidade de comunicação verbal, porém a música em si demanda diversas outras áreas de ativação. A musicoterapia contribui para o treinamento auditivo dessas diversas áreas, trazendo mais prazer e qualidade de vida para quem utiliza o implante coclear. Estudos com crianças implantadas submetidas à musicoterapia em conjunto com a fonoterapia, demonstraram uma melhora significativa no processo tanto de escuta quanto de percepção musical e fala. Esses são os elementos trabalhados nas atividades musicais:

  • Compreensão, internalização e vivência da vibração do corpo

  • Intensidade musical

  • Altura musical

  • A duração do som

  • A textura musical

  • A pulsação rítmica

  • A dinâmica musical

  • O reconhecimento de timbres instrumentais e da própria voz

  • O contorno melódico

  • A harmonia

  • A localização sonora

  • O estabelecimento do ritmo (importante para fala e canto)

  • A percepção do corpo

  • A relação tempo-espaço

O processo de (re)habilitação auditiva trabalha em quatro aspectos: a detecção, a discriminação, a identificação e a compreensão do som, aliados à memoria auditiva. A música trabalha esses cinco elementos de forma lúdica, o que facilita o processo de aprendizagem infantil e de participação efetiva na terapia. A detecção, que é a capacidade de perceber a percepção e ausência do som, é trabalhada na música através do silêncio/ pausa musical como ausência sonora e da música como presença sonora. A discriminação é a capacidade de diferenciar dois ou mais estímulos, e pode ser trabalhada na musicalidade através da percepção dos diferentes timbres dos instrumentos ou das letras das canções com onomatopeias. O reconhecimento, que é a capacidade de identificar um som e o nomeá-lo, é trabalhado no processo de nomeação do instrumento a partir do som ouvido. A compreensão, que é a capacidade de criar relações entre o estímulo sonoro produzido, outros eventos do ambiente e o próprio comportamento, relaciona-se com a música com a capacidade de nomear, por exemplo, uma melodia como sendo de determinada canção. E por fim, a memória auditiva é criada e estimulada durante todo o processo terapêutico.


A música e o Surdo



Você sabia que os Surdos sentem a música tal qual os ouvintes? Estudos realizados nos EUA comprovaram que pessoas com deficiência auditiva podem curtir a música como aquelas sem deficiência através da vibração sonora. Essa vibração ativa áreas do cérebro idênticas aquelas ativadas quando um ouvinte escuta música. E encontramos muitos casos de Surdos apaixonados pela música e por todos os benefícios que ela traz.


Um exemplo disso está no projeto do Instituto Inclusivo Sons do Silêncio, que ensina música para pessoas surdas e para pessoas com diversos tipos de deficiência. O Instituto começou ensinando instrumentos de sopro para surdos, e ampliou o trabalho para todas as pessoas com deficiência. O projeto foi criado pelo musicista e pedagogo Carlos Alberto Alves quando na elaboração do seu TCC se deparou com uma frase que dizia: "surdos não aprendem música porque não escutam", e resolveu provar o quanto isso estava errado. Ele percebeu que na maioria das escolas, públicas e privadas, não existiam profissionais capacitados para ensinar música a esse público e resolveu assim criar o instituto. “A gente enfrenta preconceito nas escolas. Muitas vezes ouvimos que eles não têm profissionais capacitados para atender a gente”, critica.


Além disso, podemos encontrar muitos exemplos pessoais de grandes musicistas surdos, que enfrentaram as barreiras do preconceito e se encantaram e encantaram o outro através da música. Pois a melhor forma de sentir a música é através do coração. E esse é inerente a todos nós, independente de qualquer limitação.

É óbvio que nem todas as pessoas com problemas de audição serão musicais no sentido mais completo da palavra. Mas, também, nem todas as pessoas auditivas serão. É necessário a oportunidade de experimentar e descobrir quais habilidades musicais estão dormentes em cada um de nós. (William G. Faukes, professor de música para surdos)
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