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  • Renata Neves

Entrevista: "Acredito que não existe limitação para ter a música na vida do indivíduo"

Atualizado: 23 de out. de 2019

A professora de música Sidcléa Cavalcanti, especialista em metodologia do ensino da música, nos contou sobre a sua experiência ensinando música nas escolas e a importância dela no desenvolvimento infantil escolar.

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Esta semana, escrevemos um pouco sobre como a experiência musical é importante no desenvolvimento infantil, tanto que seu ensino nas escolas da rede pública e privada se tornou obrigatória a onze anos, com a Lei n. 11769/2008. Mas, mesmo com a legislação, ela luta contra o senso comum de que a educação artística não deve permanecer no currículo obrigatório das escolas. Para trazer nova luz sobre o tema e demonstrar a importância de trabalhar música nas escolas, convidamos a musicista e professora de música Sidcléa Marques para nos contar sobre o que é o ensino de música, que aspectos enriquecem as crianças e sua experiência em sala de aula.

“Desde pequena, com 9 anos, eu já tocava na bandinha da escola, localizada em Tabatinga. E nesse momento foi despertado a história da música na minha vida. Na banda, eu tocava um instrumento chamado Corneta. Passei 4 anos nessa bandinha, tocando no desfile de 7 de setembro. Depois de um tempo, conheci outros instrumentos, como Trompete, que foi o meu primeiro instrumento, propriamente dito, no qual eu tive que aprender a tocar e ler a partitura. Ser professora de música também foi uma junção de um amor que eu tinha pela profissão. A minha mãe é professora de ensino regular e eu cresci com o ensino na minha casa, minha mãe levava os alunos dela pra dar aula lá em casa e aí eu fui crescendo com essa ideia do ensino, do amor ao ensinar. Então me profissionalizar nessa área partiu desses dois amores, a junção da música com a docência. Quando terminei meus estudos no ensino médio entrei na Escola Municipal de Arte João Pernambuco, lá eu fiz aula de violão, consecutivamente eu entrei na UFPE em 2005, cursei licenciatura em música e me formei em 2010. O amor pela música surgiu desde a infância e eu amo o que eu faço”.

Qual a importância do ensino de música nas escolas?

Bem, a música contribui em diversos aspectos no desenvolvimento do indivíduo, desde bebê até idosos. A música vai atuar não para o indivíduo ser músico e sim para trazer o desenvolvimento cognitivo de várias áreas como a memória, percepção, a disciplina, o pensar, ser criativo e ser consciente. A música cria sensibilidade no ser humano, contribuindo para vários aspectos e auxiliando, inclusive, no melhor desenvolvimento com as outras disciplinas.


Qual formação é necessária para que o profissional possa ensinar música nas escolas?

É necessário que o profissional que vá dá aula nas escolas tenha a licenciatura. você não pode dar aula de música sem ser licenciado. Infelizmente, existe algumas realidades por aí que as pessoas nem formação têm, nem são técnicos na área e estão ensinando em instituições. Mas, o correto é que em escolas com ensino regular, a pessoa deve ter licenciatura em música, nem o bacharelado pode, de acordo com a lei é necessário que o profissional seja licenciado.


Quais áreas do desenvolvimento infantil são estimuladas através da música e como a música colabora no processo de aprendizagem da leitura e da escrita?

As áreas do desenvolvimento infantil que a música vai trabalhar são diversas. Pode ser trabalhado até com bebês de 6 meses, normalmente trabalhamos com timbres diversos, estimulação do tato, a questão melódica, a sensação da mãe, quando cantamos para os bebês. Na educação infantil, é trabalhado o processo de cognição da memória, da coordenação motora, da lateralidade, além da questão rítmica, afinação e criatividade. Têm diversos desafios que propomos na aula de música para despertar e conscientizar as crianças da aprendizagem que elas estão adquirindo ali no momento. Existem atividades que propõe o desenvolvimento da escrita e da leitura, têm um livro, do Estevam Marques, chamado Linha, agulha, costura, que trabalha só com canções para o desenvolvimento da fala, da fonética e da escrita.

Indicação para ajudar no desenvolvimento da fonética e da escrita
Livro: Linha, agulha, costura: canção, brincadeira, leitura

Como a música pode contribuir no estímulo à aprendizagem criativa da criança?

Existem vários pensadores musicais que trazem filosofias e métodos para aprendizagem criativa. Um dos métodos que gosto é trabalhar com ostinatos. Ostinatos são uma célula rítmica que se repete e isso estimula o lado criativo da criança de mudar o ritmo de uma canção e até a criar o seu próprio ritmo. Muitos alunos meus no momento da atividade questionam: “Tia, e se eu fizer de tal forma?” E aí vamos, juntos, criando modificações a partir da ideia da criança e isso desenvolve o pensar e a criatividade.


Como se forma um hábito musical? E como a escola pode colaborar com a formação desse hábito?

Todo mundo têm um hábito musical. Até aquela pessoa que diz não gostar de música têm. A música tá presente o tempo todo. Acredito que trabalhar com música dentro da escola, possibilita também ao aluno, querer ou não, investir na música de uma forma profissional. Quando um aluno me ver tocar, por exemplo, isso gera atenção neles, eles ficam curiosos e isso os instiga a querer aprender. Porém, o hábito musical se dá no dia a dia, no simples ato de ouvir e do profissional respeitar e entender o processo dos alunos. É necessário na aula momentos de teoria, que normalmente é o que não chama tanto a atenção das crianças, mas que é importante elas aprenderem e depois da base teórica, colocar em prática o que foi visto na aula ajuda na aprendizagem e na criação de um hábito musical, criando nos alunos o interesse em aprender.

Ostinatos são motivos rítmicos ou melódicos que se repetem na música. A trilha sonora do filme Missão Impossível contém ambos os tipos

Qual a importância de se estimular a criação musical das crianças?

Existe um longo caminho, de aulas, atividades e experiências musicais. A criança atua diretamente nas brincadeiras, tocando os instrumentos, tocando, criando, mas, pra ele ter a criação plena da música ele precisa ter todos esses pontos bem desenvolvidos. A questão rítmica, do pulso, as características do som (grave e agudo, forte e fraco), os timbres, a afinação, então é necessário que as crianças adquiram isso para a melhor prática do criar musical. Às vezes a criança acha que não têm tudo isso, mas tá lá, nós profissionais a ajudamos a externalizar isso.


Como se faz a experimentação de instrumentos musicais na escola?

Geralmente, na primeira aula de música eu escuto das crianças e dos alunos: “Tia, quero aprender tal instrumento”, “Meu filho ama guitarra, ensine ele a tocar”, entre diversos outros pedidos. Mas, a música na escola não tá ali pra ensinar o aluno a ser músico, pra isso ele precisaria ter um ensino específico de música ou de determinado instrumento. Na escola, essa experiência instrumental se dar diretamente nas atividades, mas ele não vai aprender, por exemplo, a tocar um violão. Dependendo da faixa etária, a partir dos 7 anos, eu indico o uso da flauta doce, que é um instrumento fácil de carregar, barato em relação aos outros, podendo trabalhar nele a questão melódica, de afinação, harmonia e ritmo. Na minha aula, os meus alunos de educação infantil convivem com diversos instrumentos diferentes, eu tenho a prática de levar a cada mês um instrumento diferente que eles nunca conheceram. Uma sanfona, por exemplo, ou instrumentos de percussão. Também construímos instrumentos alternativos com garrafas pets, flautas com cano de pvc, entre outros feitos com materiais sustentáveis.


A flauta doce é um ótimo instrumento para crianças a partir dos 7 anos, por ser fácil de carregar, barato e poder trabalhar os diversos elementos melódicos

Como se faz a escolha dos instrumentos a serem apresentados às crianças?

Depende da idade, a partir dos 7 anos, existe um instrumento padrão que todo profissional deve ter essa prática, que no meu caso é a flauta doce. Mas, falando da educação infantil, às crianças tocam diversos instrumentos de percussão, como xilofones e outros que a gente constrói e não é só trabalhado os instrumentos, mas também os gestos, os sons que o nosso corpo gera. Muitas crianças não se conhecem, não conhecem as partes do seu próprio corpo, onde fica o seu ombro, o seu cotovelo, então por isso diversas músicas também trabalham a questão do corpo, do movimento. Até porque eu acredito que música está diretamente ligada ao movimento, então eu prefiro ensinar ritmo com uma dança do que ir logo primeiro para um instrumento e tocar.


Quais materiais alternativos podem ser utilizados para criar sonorizações para contações de histórias?

São vários. Existe o efeito água, que é feito a partir de tampinhas de garrafa pet enroladas em um barbante. Para o efeito abrir porta, por exemplo, podemos pegar o instrumento rói-rói para fazer o som de abrir uma porta. Têm instrumentos tradicionais também, que fazem som de chuva, de rio, de sapo, entre diversos outros que são trabalhados com as crianças em sala de aula.

Acredito que não existe uma limitação para ter a música na vida do indivíduo. Até para uma pessoa que é tetraplégica temos diversas atividades musicais que podem ser trabalhadas.

Qual a importância da música na inclusão de crianças com deficiência e dificuldades de aprendizado?

A música vai atuar, tanto pra uma criança que não tenha nenhuma deficiência como para as que têm deficiência. Eu tenho diversos alunos com autismo e eles fazem as atividades, assim como os outros, e é perceptível o avanço deles. Na questão do falar por exemplo, da atenção e do instrumento chama mais a atenção daquela criança, então eu trabalho por igual. Agora, existe um profissional que é o Musicoterapeuta, que vai atuar especificamente e individualmente com cada criança, aí eu indico que além das sessões com a terapia, que as crianças deficientes façam também sessões com o musicoterapeuta, que é muito importante para o desenvolvimento delas. Acredito que não existe uma limitação para ter a música na vida do indivíduo. Até para uma pessoa que é tetraplégica temos diversas atividades musicais que podem ser trabalhadas.

A maioria delas (das escolas) não dão recursos, geralmente nós não temos sala de aula específica, os materiais, bandinhas rítmicas, ou instrumentos específicos dos profissionais e são os professores que vão atrás do material.

O que você enxerga que falta nas escolas para o auxílio nas aulas de música?

Eu tenho 10 anos de docência e vejo que muitas escolas querem ter música, mas por não saberem como funciona, não procuram saber dos profissionais o que precisa realmente para ter aula de música. A maioria delas não dão recursos, geralmente nós não temos sala de aula específica, os materiais, bandinhas rítmicas, ou instrumentos específicos dos profissionais e são os professores que vão atrás do material. Têm até escolas que vejo por aí fazendo várias propagandas, com um menino na foto tocando um violino e os pais colocam achando que o filho tá tendo música com materiais de qualidade na escola sem saber que a realidade é totalmente diferente do que é mostrado na propaganda.


Você acredita que as escolas conscientizam os pais e educadores da área a como inserir a música no desenvolvimento da criança?

Eu acredito que as escolas conscientizam sim os pais e a comunidade escolar sobre a música. Mas, como eu já falei, muitos falam e conscientizam, mas na prática, a gente ver que não acontece, que a maioria das escolas não dão recursos para melhorar a qualidade das aulas. Eu sou uma professora extremamente rígida em relação a isso. Se eu estou em um lugar que diz que a música é ótima, mas que na prática não exerce essa conscientização, eu não continuo no local.








A professora de música, Sidcléa Marques, formada em Música pela UFPE, é pós-graduada em metodologia do ensino da música e ensina à dez anos em sala de aula. Apaixonada pela profissão, ela uniu dois amores, a música e o ensino, para fazer diferença na vida de centenas de crianças que já passaram pelas suas aulas.

Essa imagem foi escolhida por ela por ser do boneco que se chama Monstrolino , personagem de uma música do Estêvão Marques, criado por educadores do Tum tum pá.

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