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  • Renata Neves

As diferentes faces da surdez

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Amanda nasceu com deficiência auditiva severa e perdeu o pouco resíduo em 3 anos. Gabriel nasceu com deficiência auditiva moderada e aos quinze anos perdeu todo o resíduo. Marina nasceu com surdez profunda. Renato perdeu a audição aos dez anos por conta de uma meningite. Todos eles são surdos, porém cada um deles tem uma história diferente. E é sobre isso que vamos conversar hoje: sobre a importância da empatia como instrumento de reconhecimento das necessidades do outro.


Segundo os dados (errôneos, explico porque mais para frente) do IBGE de 2010, 5% da população brasileira é surda, em grau severo a profundo. Porém o que esses dados trazem é o reconhecimento por parte dessa população de uma surdez que não se beneficia por nenhum tipo de prótese auditiva. Só que a história é um pouco mais complicada que isso.


Como no exemplo que dei acima, temos uma gama imensa de diversidade dentro do universo da surdez de indivíduos que nasceram com surdez profunda, ou nasceram com algum resíduo auditivo que permitiu que utilizasse a audição com o apoio de AASI, desenvolvesse uma memória auditiva e depois perdesse o resíduo, ou nasceram ouvintes e perderam a audição depois de um bom tempo de história como ouvinte. E diante disso também temos aqueles que tiveram a possibilidade de desenvolverem uma memória auditiva a partir do Implante Coclear, outras que a memória foi resgatada posteriormente com esta prótese e outras em que nem o IC, nem o AASI trouxeram qualquer benefício a médio e a longo prazo. Para cada um deles, uma história diferente, uma necessidade diferente, uma identidade também diferente.


É muito simples se colocar numa posição generalista, em que enquadramos todos dentro do mesmo pacote, e que nosso ponto de vista oriundo da nossa história pessoal serve para que possamos julgar a escolha A ou a escolha B como a correta para todo mundo. Esquecemos que as pessoas são únicas e assim, também esquecemos de ter empatia por cada uma delas.


Minha filha é surda, ela nasceu com um resíduo auditivo muito pequeno, mas que a impossibilitava por um tempo de ser candidata ao implante coclear. Porém eu sabia também, a observando, que o AASI não trazia muitos benefícios durante aquele tempo. Por um período eu pensei na possibilidade de a inserir no mundo da Libras, e faria de muito bom grado se eu não percebesse a necessidade que ela demonstrava de querer se comunicar de forma oral. Desde pequena, com um ano de idade, ela fazia leitura labial. Inclusive foi um dos motivos do mascaramento da surdez, o que fez com que demorássemos a perceber a deficiência auditiva até quase dois anos de idade. Aos três anos ela perdeu o resíduo auditivo que tinha e se tornou candidata ao Implante Coclear. E lá foi ela, por duas vezes. E qual não foi a nossa surpresa, minha, da família e dos profissionais que a acompanhava, com a evolução rápida que ela teve, totalmente fora do esperado e da curva. Aquilo foi uma confirmação de que o caminho escolhido estava certo.


Porém dentro desse processo eu também cruzei com muitos personagens, muitas histórias diferentes da minha e da dela. Vi crianças mais novas que ela que implantaram na mesma época e que não tiveram um desenvolvimento significativo. Para essas eu mesma, quando os pais ou cuidadores vinham conversar comigo, perguntava se não seria uma boa opção que elas aprendessem Libras, pois era visível o sofrimento da criança na tentativa de se comunicar e na dificuldade de seguir os padrões que os profissionais traziam como necessário. Também vi crianças que foram até quase sete anos na tentativa da oralização, sem sucesso, e depois que inserida na Libras, tiveram uma melhora significativa na própria oralização. Vi também crianças que implantaram com um ano de idade e que chegaram aos quatro anos com a fala e a maturidade de uma criança de quatro anos, onde a audição foi incorporada de forma plena por elas. Vi também pessoas que implantaram anos após a perda da audição e que tiveram uma qualidade de vida significativamente melhor após isso. E vi pessoas privadas de se comunicar até a fase adulta, porque a família simplesmente não aceitava a sua surdez.


O que eu aprendi com todas essas histórias, incluindo a minha? Que não existe um único caminho correto, não existe uma única verdade, uma única forma de se chegar lá. O que existem são histórias, caminhos, de acordo com cada pessoa. Estamos todos juntos, na mesma jornada, porém dentro de uma diversidade que se torna muito mais rica quando aprendemos a nos distanciar nas nossas próprias verdades e passamos a aprender a observar também a verdade do outro. A empatia é a possibilidade de sentir a dor do outro para então o compreender. Que tal treinar a nossa empatia? Garanto que ganhamos uma vida muito mais rica.



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